Milton Campelo, presidente do Sindicanalcool — Sindicato dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool dos Estados do Maranhão e Pará — fala sobre o papel da Aliança Brasileira para Descarbonização dos Portos (ABDP) na construção de uma agenda para reduzir as emissões dos setores portuário e aquaviário.
O Sindicanalcool participa da ABDP como membro desde sua criação.
Na entrevista, Milton Campelo aborda a inserção do etanol nessa transformação, os desafios de infraestrutura para o abastecimento de embarcações, a criação de corredores marítimos verdes e o potencial estratégico dos portos brasileiros.
O presidente também destaca as oportunidades para o Nordeste, que reúne produção regional de etanol, posição geográfica favorável e portos com iniciativas voltadas à transição energética.
Confira a entrevista:
Qual é o papel da Aliança Brasileira para Descarbonização dos Portos e como o etanol está inserido nessa agenda?
O papel principal da ABDP é promover a troca de experiências, tecnologias e informações entre portos, órgãos públicos e empresas para acelerar a descarbonização dos setores portuário e aquaviário. A aliança estrutura o planejamento, capacitação e inteligência setorial para ajudar os portos a cumprirem metas de transição energética.O etanol está inserido como uma solução imediata e de escala. A ABDP fomenta debates regulatórios e logísticos para viabilizar o uso do etanol e de biobunkers, aproveitando o fato de o Brasil ser uma potência sucroenergética global.
A discussão internacional normalmente se concentra nas emissões dos navios. Qual é a importância de pensar a descarbonização também a partir dos portos e de toda a cadeia de abastecimento?
Os navios só podem adotar combustíveis de baixa emissão se os portos oferecerem infraestrutura de recebimento, armazenagem e bombeamento seguro. Infraestrutura de Abastecimento (Bunkering).
Os portos brasileiros estão preparados para armazenar e fornecer etanol em maior escala para embarcações? Onde estão atualmente os principais gargalos?
O Brasil produziu 35,9 bilhões de litros de etanol, possuindo uma escala industrial pronta que o diferencia de outros combustíveis alternativos. Os portos possuem experiência no embarque para exportação, mas não para o abastecimento direto de navios (bunkering). Gargalo de Infraestrutura e Barcaças: Operações de abastecimento de navios (bunkering) exigem barcaças dedicadas e tanques adaptados nos terminais líquidos. A operação piloto em Santos demandou dois anos de preparação logística específica. Gargalos de Acesso e Conectividade: Os acessos terrestres e a disputa de espaço com outras commodities agrícolas geram congestionamentos e filas nos portos principais, o que eleva custos e dificulta estoques dedicados a combustíveis marítimos sustentáveis. Barreira Tecnológica da Frota: Navios comerciais comuns não podem usar etanol puro; dependem de motores novos de tecnologia flex ou tricombustível, cuja frota global ativa ainda é restrita (cerca de 70 navios aptos).
O Brasil poderia estruturar corredores verdes ou hubs portuários de abastecimento com etanol em determinadas regiões do país?
O Brasil possui plenas condições e já trabalha para atuar na criação de corredores marítimos verdes, que são rotas de navegação operadas com combustíveis de baixa ou zero emissão. O Ministério de Portos e Aeroportos já avançou em tratativas e workshops com nações como Noruega, Países Baixos (Roterdã) e Panamá para conectar os portos nacionais a hubs internacionais sustentáveis. Especialistas indicam que a cabotagem (navegação doméstica pela costa brasileira) é a rota mais fácil de ser descarbonizada inicialmente com etanol e biodiesel devido à infraestrutura e oferta já descentralizadas no país.
Qual papel os portos do Nordeste podem desempenhar nessa estratégia, considerando a produção regional de etanol e a posição geográfica da região?
Portos nordestinos como Itaqui (MA), Suape (PE) e Pecém (CE) — membros fundadores da ABDP — possuem localização geográfica estratégica, estando mais próximos das rotas para a Europa e a costa leste dos EUA. A região combina a produção regional de cana-de-açúcar e etanol com forte desenvolvimento em infraestrutura para hidrogênio verde.O Porto de Suape implementou a primeira termelétrica movida a etanol do mundo, enquanto o Pecém consolida parcerias internacionais (como os Portos de Roterdã e Rostock) focadas em corredores de energia limpa. O Nordeste se posiciona para atrair investimentos maciços em armazenagem e refino voltados ao mercado marítimo internacional.
Fonte: https://sindalcool.com.br/noticias/etanol-no-transporte-maritimo-or-a-descarbonizacao-tambem-passa-pelos-portos

